Mães atípicas são aquelas que cuidam de filhos com síndromes, transtornos do neurodesenvolvimento, deficiências e/ou doenças raras. São mulheres que, a partir do diagnóstico de seus filhos, passam a trilhar uma maternidade profundamente diferente daquela que imaginaram. Sua rotina é marcada por uma série de demandas específicas, que exigem acompanhamento constante, adaptação diária e um envolvimento intenso, tanto prático quanto emocional. Muitas vezes, essas mães se tornam especialistas na condição de seus filhos, mediadoras com os sistemas de saúde e educação, e defensoras incansáveis de seus direitos, tudo isso em meio a uma jornada solitária e pouco compreendida pela sociedade.
Ser uma mãe atípica é lidar diariamente com demandas que ultrapassam o esperado e quase sempre em silêncio. É viver entre o amor incondicional e o cansaço extremo, entre a força que sustenta e a vulnerabilidade que ninguém vê. É por isso que compreender os desafios dessa jornada é urgente, especialmente para profissionais, familiares e toda a sociedade.
A seguir, apresento os cinco principais desafios vivenciados pelas mães atípicas, com base na minha experiência clínica ao longo dos anos atendendo e escutando essas mulheres de perto.
1. Sobrecarga física e emocional constante
A rotina de uma mãe atípica costuma ser exaustiva. São consultas, terapias, medicações, adaptações escolares, burocracias infindáveis e cuidados intensivos, tudo isso somado às demais exigências da vida cotidiana. O corpo e a mente vivem em estado de alerta contínuo, quase sempre sem espaço para pausas reais. Muitas dessas mães não dormem bem, não se alimentam adequadamente e quase nunca têm tempo para si. A sobrecarga não é apenas física, mas também emocional: elas carregam o peso de decisões difíceis e, muitas vezes, solitárias.
2. Solidão e invisibilidade
A maternidade atípica é frequentemente solitária. Há uma dificuldade social em lidar com o que foge ao esperado, e isso se reflete no afastamento de amizades, na falta de compreensão por parte da família e até na negligência de políticas públicas. Essas mães muitas vezes sentem que não há lugar para elas nos espaços sociais comuns. Seus desafios não são reconhecidos, e elas passam a viver uma espécie de “maternidade paralela”, invisível aos olhos da maioria.
3. Culpa e autocrítica intensa
Sentir-se culpada por não conseguir “dar conta de tudo”, por não ter percebido os primeiros sinais, por precisar dividir o tempo entre os filhos, por desejar uma pausa, por se sentir cansada… A culpa aparece em diversas formas. Soma-se a isso uma autocrítica severa e constante, alimentada por expectativas irreais sobre o que significa ser uma “boa mãe”, expectativa essa que pesa ainda mais sobre mães atípicas, como se delas fosse exigido um nível de perfeição inatingível.
4. Ausência de rede de apoio e acolhimento real
Embora a expressão “rede de apoio” seja frequentemente usada, na prática, muitas mães atípicas vivem sem qualquer suporte efetivo. Familiares se afastam, amigos não sabem como ajudar e até profissionais negligenciam ou invalidam suas experiências. As promessas de ajuda muitas vezes não se concretizam, e essas mães acabam enfrentando situações complexas sozinhas. A ausência de uma rede empática e disponível aumenta o risco de sobrecarga, adoecimento emocional e sensação de abandono. Mais do que auxílio prático, o que essas mulheres precisam é de presença acolhedora, escuta sem julgamentos e apoio verdadeiro, algo que, infelizmente, ainda é raro.
5. Dificuldade em cuidar de si mesma
Uma das queixas mais recorrentes que ouço em consultório é: “Eu não sei mais quem eu sou”. O autocuidado parece um luxo inatingível. As mães atípicas colocam os filhos em primeiro lugar o tempo todo, por amor, por necessidade, por falta de apoio. Mas esse apagamento de si tem consequências: adoecimentos físicos, transtornos emocionais e a perda da própria identidade. Cuidar de si não é egoísmo; é sobrevivência. Mas, para muitas, esse caminho precisa ser reaprendido com suporte e acolhimento.
Falar sobre esses desafios não é reforçar sofrimento, é reconhecer realidades. É abrir espaço para que essas mulheres sejam vistas, ouvidas e acolhidas com dignidade. É também um chamado à nossa responsabilidade profissional: mães atípicas precisam de psicólogos capacitados, que compreendam a complexidade dessa vivência e saibam oferecer intervenções sensíveis, eficazes e comprometidas com o cuidado integral. Foi por isso que criei a Capacitação em Psicologia da Maternidade Atípica, um curso completo e fundamentado, voltado para profissionais que desejam atuar com ética, preparo e real transformação na vida dessas mães. O acolhimento especializado não é um diferencial, é uma urgência. Só assim poderemos construir uma rede mais empática, justa e humanizada.
Por fim, agradeço ao grupo Família TEA Bauru pelo espaço nesta coluna tão diversa e com conteúdos que interessam a comunidade das pessoas com TEA e demais neurodivergências. Agradeço também ao Portal GPN pela oportunidade.
Sobre Mariana Sotero Bonnás
Mariana Sotero Bonnás é psicóloga referência no atendimento a mães atípicas (CRP 06/92998) e autora do livro “Mães atípicas – A Maternidade Que Ninguém Vê” (Ed. Gente). A profissional atua exclusivamente com famílias atípicas, especialmente mães de pessoas com doenças raras, síndromes, transtornos ou deficiências. Atende mães em psicoterapia individual e em grupo, além de prestar serviços personalizados para empresas, com cursos, palestras, rodas de conversa, entre outros.
Mariana Sotero Bonnás é formada em Psicologia pela PUC-PR desde 2008. Cursou Pedagogia pela FAM, com conclusão em 2021. Possui especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental pela USP, Psicologia e Transtorno do Espectro Autista pela UNIARA e Educação Especial e Inclusiva pela Faculdade de Educação São Luís. É Diretora do Núcleo de Acolhimento da Associação da Síndrome de Prader-Willi (SPW).


